Entre flores e lágrimas: Quando o 8 de Março também precisa chorar

Imagem ilustrativa gerada por IA

Eu hoje queria contar as coisas boas que resultam das lutas das mulheres. Ah, como eu gostaria de falar sobre as vitórias conquistadas, sobre os amores bem amados, sobre uma vida bem mais leve, sem medos, sem cabrestos e sem receios. Infelizmente, o que temos visto ultimamente não me deixa à vontade para tal feito.

Não dá pra ficar amordaçada, cega, acomodada ou agraciada com mimos e palavras doces do dia 8 de março, quando vimos dezenas de MENINAS serem assassinadas de uma só vez, e dentro de uma ESCOLA. Não dá pra sentir alegria quando somos informadas que mais uma garota foi seviciada por garotos amigos, inclusive um EX- NAMORADO.

Pelas mãos de quem, tudo isso está acontecendo? Você pode até responder: mãos da guerra, mãos de jovens delinquentes. E eu devolvo: – mas de quem são as mãos da guerra e de jovens delinquentes? A quem pertencem estas mãos?

Não quero usar o momento pra instigar querelas nem antagonismos, quero apenas que reflitamos sobre a matança e as violências, sejam elas sexuais, psicológicas, financeiras, biológicas ou outras “ lógicas” que nos circundam todos os dias.

Aproveito a mesma tinta para falar que todos os dias meninas, adolescentes e mulheres são assediadas na escola, no trabalho, nas ruas, dentro de casa, e até nos templos religiosos. Muitos desses assédios terminam vitimando-as, não só física como também psicologicamente. Quem é que vai pagar (?) por isso? Quem é que vai parar com tudo isso? Quais são os interesses que se movem por baixo dessas ações: massacres, assédios, assassinatos, intimidações, invisibilidades, cárceres psicológicos e físicos?

Por que, e como é que sentimentos tão nocivos como ódio, desprezo, indiferença, desespero, tédio, são internalizados em crianças, jovens e ou adultos, para que possam agir de tal maneira? Onde erramos como pais, sociedade e civilização? Que tipo de educação temos pensado e realizado para as nossas “crias” em casa, na escola, na igreja, na rua, nos grupos e na vida?

Eu te juro, que hoje eu queria cantar com muita alegria pelas conquistas femininas e pela alegria de ser mulher; infelizmente hoje em mim não cabe alegrias, não cabe mimos e nem palavras doces, cabe lágrimas e flores para estas criaturinhas que foram brutalmente violentadas, cabe um abraço bem caloroso de mãe afetiva, para as mães das meninas assassinadas na guerra, para a mãe da garota do Rio que foi brutalmente seviciada, e para as mães que todos os dias se colocam no front de todas as lutas diárias pelos seus.

Hoje o meu repúdio vai para as mãos, que receberam tanto afeto e que hoje nos causam tantas dores, e que revelam em tintas coloridas a perversidade da preservação das mazelas que estamos aprendendo a enxergar e abominar: o lixo dos conceitos do patriarcado.

Domingo/ março 26

Por Glória da Paz

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